Servidora relata ‘desconto’ maior em salário e expõe suspeita de rachadinha na Câmara de Iguape
Mensagens de celular mostram funcionária reclamando de repasse de R$ 2 mil ao presidente da Câmara, valor superior ao exigido de outra colega. Vereador é investigado por desvio de R$ 202 mil em salários de comissionados
Uma troca de mensagens entre duas mulheres ligadas à Câmara Municipal de Iguape (SP) ajudou a detalhar as suspeitas de rachadinha que pesam contra o presidente afastado da Casa, o vereador Eduardo de Lara (Republicanos).
Segundo apuração do g1, as conversas foram anexadas pelo Ministério Público (MP) ao procedimento que investiga o parlamentar por suposto desvio de R$ 202 mil em salários de servidores comissionados entre 2021 e junho de 2025.
Na troca de mensagens, registrada em 2022, uma servidora comissionada reclama a uma amiga que o valor exigido mensalmente do salário dela seria maior do que o cobrado de outra funcionária.
O trecho reproduzido na denúncia mostra a diferença de valores:
Servidora: “E [nome censurado] ontem jogando na minha cara que Eduardo tira dela só R$ 1,5 mil e de mim tira R$ 2 mil.”
Amiga: “Mentira, [nome censurado].”
Os nomes das envolvidas foram preservados nos autos e também não são citados nesta reportagem.
Como funcionaria o esquema, segundo o Ministério Público
De acordo com a denúncia apresentada pelo MP, o vereador é investigado por peculato, crime contra a administração pública.
A apuração aponta que Eduardo de Lara exigia, todo mês, uma parte do salário de ao menos dez servidores comissionados, em valores que variavam de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil, como condição para que eles permanecessem nos cargos.
Esse tipo de prática é conhecido como rachadinha: o servidor recebe o salário bruto, mas precisa devolver parte do valor ao político que o indicou, em acerto informal e sem previsão legal.
Ainda conforme a denúncia, o suposto esquema teria funcionado de 2021 até junho de 2025, período no qual o vereador teria se apropriado de, pelo menos, R$ 202 mil provenientes dos salários de servidores ligados ao gabinete.
Decisão da Justiça e medidas impostas ao vereador
As suspeitas levaram a uma decisão da Justiça de Iguape, em 4 de novembro, determinando o afastamento de Eduardo de Lara da presidência e do exercício do mandato na Câmara, em primeira instância.
Além do afastamento, foram impostas medidas cautelares, como:
• proibição de acesso às dependências da Câmara Municipal
• proibição de manter contato com servidores do Legislativo
• pagamento de fiança no valor de R$ 82 mil, como garantia de cumprimento das regras durante a investigação
Na denúncia, o Ministério Público também pediu que o vereador seja condenado ao pagamento de R$ 300 mil a título de danos morais coletivos, caso venha a ser responsabilizado ao final do processo.
TJ-SP mantém afastamento e vê risco de interferência
A defesa do vereador recorreu ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) com um pedido de habeas corpus, alegando que a decisão de primeira instância configuraria constrangimento ilegal e estaria baseada apenas em denúncia anônima, sem provas suficientes ou diligências prévias.
Na quinta-feira (13/11/2025), o desembargador Geraldo Wohlers negou a liminar. Para o relator, a decisão da juíza de Iguape estava fundamentada em indícios suficientes de materialidade e autoria, além de apontar risco de interferência do investigado nas apurações caso permanecesse no cargo.
Com isso, o afastamento do vereador e as demais medidas cautelares continuam valendo enquanto o caso segue em análise.

Câmara e defesa não se manifestaram
Segundo o g1, que revelou o conteúdo das mensagens e detalhou a decisão judicial, foram enviados pedidos de posicionamento à Câmara Municipal de Iguape e à defesa de Eduardo de Lara, mas não houve resposta até a publicação da matéria.
O espaço está aberto para manifestações.






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