Edson Sarti
"Alguém tem que matar essas malditas"
Onças vistas entre Apiaí e Guapiara são ameaçadas pela ignorância e desinformação
Onças-pintadas às margens da SP-250, entre Apiaí e Guapiara.O recente registro de duas onças-pintadas (Panthera onca) às margens da rodovia SP-250, entre Apiaí e Guapiara, trouxe à tona o estado precário da educação ambiental da população no Vale do Ribeira. Identificados provavelmente como Escuro e Estrela, os animais foram vistos no entorno do PETAR, com imagens divulgadas por páginas regionais nas redes sociais. Isso desencadeou uma onda de comentários hostis, nos quais moradores exigiam a morte dos animais: “alguém tem que dar um jeito de matar essas malditas antes que ela comece a comer gente”, escreveu uma internauta.

Comentário publicado nas redes sociais após o registro das onças-pintadas entre Apiaí e Guapiara. Print do Facebook.
Longe de ser uma "praga" que ameaça a sociedade, a onça-pintada está desaparecendo. No Contínuo de Paranapiacaba (uma área de mais de sete mil quilômetros quadrados no Vale do Ribeira e Alto Paranapanema, composta por um mosaico de quatro parques estaduais, duas áreas de proteção ambiental, uma estação ecológica e algumas grandes florestas particulares), a população da espécie sofreu uma queda aterrorizante de 77% em apenas uma década. Hoje, a estimativa é de que exista apenas 0,14 onças-pintadas para cada 100 quilômetros quadrados — restando provavelmente menos de 25 indivíduos em toda a região.

Contínuo de Paranapiacaba. Datageo.
O extermínio desse predador de topo é o atestado de óbito da floresta: sem esses animais, o equilíbrio ecológico desmorona, as populações de herbívoros saem de controle, a mata deixa de se regenerar adequadamente e, consequentemente, nascentes e cursos d’água sofrem impactos severos. Essa é uma explicação extremamente simplificada, já que compreender a ecologia das onças-pintadas e suas funções ecossistêmicas exige estudos ecológicos complexos. Para justificar o desejo de matar as onças de Apiaí, muitos moradores citaram um episódio trágico ocorrido no Pantanal: “eu em particular não gosto delas depois que uma comeu o sr Jorge no mato grosso baixo [bicho] traiçoeiro”.

Comentário publicado nas redes sociais após o registro das onças-pintadas entre Apiaí e Guapiara. Print do Facebook.
Jorge Ávalo, um caseiro de 60 anos, foi morto em um pesqueiro em Aquidauana (MS). O que parte da população ignora — e sequer buscou compreender — é que especialistas apontam que a onça-pintada envolvida no ataque estava sendo alimentada artificialmente por humanos na região, prática conhecida como “ceva”, utilizada para atrair o animal e facilitar registros fotográficos para turistas. O animal capturado estava magro e debilitado (pesando cerca de 94 kg, quando deveria ultrapassar os 120 kg) e essa prática criminosa faz com que o felino perca o medo natural do ser humano e passe a associá-lo à oferta de alimento.

Onça-pintada envolvida no ataque no Pantanal transferida para instituição mantenedora em Amparo (SP). Foto: Acervo Instituto Ampara Animal/G1.
A histeria também se alimenta de outras tragédias importadas, como o ataque a uma menina de oito anos em Goiás. No caso ocorrido na Chapada dos Veadeiros, especialistas apontam que o ataque da onça-parda à criança pode ter sido motivado por comportamento defensivo do animal. Entre as hipóteses levantadas estão a proteção de filhotes, defesa de alimento, susto causado pela aproximação humana ou reação a movimentos bruscos durante a trilha. Segundo pesquisadores, ataques desse tipo são raríssimos e normalmente acontecem em situações específicas de pressão, surpresa ou ameaça percebida pelo felino. Sem contar que os turistas estavam em um santuário natural, ou seja, na própria área de vida da onça-parda.
No entanto, o animal envolvido no caso goiano era uma onça-parda (Puma concolor), espécie com características físicas e comportamentais completamente diferentes da onça-pintada. Enquanto a onça-parda possui porte semelhante ao de um cachorro de grande porte e apresenta alta capacidade de adaptação — tolerando a presença humana e chegando até mesmo a áreas urbanas —, a onça-pintada depende de extensas áreas de mata preservada para sobreviver. Como se não bastasse o desconhecimento, o imaginário popular ainda costuma confundir frequentemente esses animais com a jaguatirica (Leopardus pardalis), um felino de porte muito menor. Colocar todos esses animais no mesmo “balaio” de ameaça cria a falsa percepção de que a região estaria infestada de predadores perigosos.

Onça-parda no Santuário Volta da Serra, em Goiás, local onde ocorreu o ataque. Foto: Reprodução/Instagram Santuário Volta da Serra/G1.
O risco real de ataques de onça-pintada na Mata Atlântica paulista pode ser avaliado pelo histórico extremamente raro desses episódios no bioma. Além disso, as onças-pintadas da Mata Atlântica são menores, mais furtivas e extremamente raras. Para evitar tragédias, o Estado precisa atuar com urgência na conscientização das comunidades rurais e no fortalecimento da fiscalização ambiental. A criação de corredores ecológicos seguros e a instalação de passagens de fauna em rodovias, como a SP-250, são medidas fundamentais, assim como punições severas para quem promove “cevas” ou a caça ilegal.
As interações negativas entre fauna e pessoas, em grande parte, surgem das próprias ações humanas. “Máscara”, uma onça-pintada macho, levou um tiro capaz de quebrar sua pata, ficou incapacitado de caçar suas presas na mata e acabou forçado pela fome a atacar galinhas e patos em sítios de Guapiara. Prestes a ser resgatado, foi covardemente executado e jogado em um córrego com mais de 50 perfurações de chumbinho pelo corpo.

Onça-pintada encontrada morta em córrego entre Guapiara e Capão Bonito. Foto: Fundação Florestal/Divulgação/G1.
Atribuir às onças o papel de “invasoras” é, no mínimo, ignorar a realidade ambiental da região. Rodovias cortam seus territórios, loteamentos avançam sobre as bordas das matas e o desmatamento reduz drasticamente suas áreas de caça e sobrevivência. Cercado por concreto, gado e asfalto, o animal é empurrado para o conflito, onde frequentemente acaba vítima da caça motivada pelo medo e pela desinformação.

Comentário publicado nas redes sociais após o registro das onças-pintadas entre Apiaí e Guapiara. Print do Facebook.
Há anos nós, junto de tantos outros colegas, percorremos PETAR, Intervales e Carlos Botelho em atividades de pesquisa, espeleologia, exploração científica e turismo, adentrando cavernas, trilhas e áreas remotas da Mata Atlântica, sem nunca entrar em contato direto com uma onça-pintada ou até mesmo com a onça-parda. O respeito à fauna sempre foi a principal forma de coexistência nesses territórios. No fim, o medo irracional transforma o próprio ser humano no mais perigoso predador da floresta.







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