• VALE DO RIBEIRA, 03/04/2026
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    Edson Sarti

    Radioatividade no Rio Ribeira

    Risco ou Mensagem?

    Edson Sarti Wernek
    Radioatividade no Rio Ribeira Ponte sobre o Rio Ribeira de Iguape

    O Rio Ribeira de Iguape, no estado de São Paulo, elemento construtor com força absurda de tudo o que hoje ousamos chamar de nosso, com seus 470 quilômetros de extensão, recebeu recentemente, no seu trecho entre Eldorado e Sete Barras, um estudo da USP intitulado “Marcadores radioisotópicos do Antropoceno em sistemas fluviais meândricos: identificação de traços de Cs-137 no baixo Ribeira (SP)”, dissertação de mestrado do geógrafo Bruno Schimidtke Rodrigues, sob orientação de Cleide Rodrigues e coorientação de Rubens Cesar Lopes Figueira.


    Rio Ribeira de Iguape - Foto de Edson Sarti Wernek

    Bruno e seus orientadores identificaram a presença de Césio-137, um isótopo radioativo que chegou ao nosso rio a partir dos testes nucleares realizados durante a Guerra Fria, entre as décadas de 1950 e 1970. Quando foi lançado na atmosfera, esse material foi transportado pelas massas de ar e acabou retornando à superfície em forma de chuva, fenômeno conhecido cientificamente como fallout, atingindo seu pico em 1963.

    É fundamental compreender que os níveis encontrados não representam risco algum para as pessoas. São valores residuais, extremamente baixos, sem impacto à saúde pública ou ao meio ambiente. A relevância da descoberta está, sobretudo, no seu valor simbólico e científico: trata-se de um marcador do chamado Antropoceno, época geológica em que a Terra passa a carregar impressões visíveis da ação humana.

    O Antropoceno é proposto por pesquisadores como a nova era da história geológica do planeta, um período marcado pelas nossas ações destrutivas, que alteram o curso natural das coisas. Detectar um elemento radioativo como o Césio-137 em um rio tão preservado quanto o Ribeira é reconhecer a profundidade do nosso impacto, o desrespeito à natureza e a dor que somos capazes de causar uns aos outros em escala global.

    Qual é o impacto de uma guerra sobre o meio ambiente? Sobre a vida de todos os seres do planeta? Estamos realmente separados dos conflitos globais? O que um presidente fala e faz do outro lado do mundo deve, ou não, nos preocupar?

    Nossa casa comum merece ser protegida e, especialmente, entendida de forma correta e verdadeira. É irresponsável usar uma descoberta científica desse porte para gerar medo em nossa comunidade. O estudo não é um alerta de perigo para a vida e saúde das pessoas, mas um lembrete: as nossas ações estão gravadas até mesmo nas águas mais intocadas. Quando tudo se revelar, você terá medo ou orgulho de ser descoberto?

    Rio Ribeira de Iguape - Foto de Edson Sarti Wernek



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